quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Minhas pernas nunca doeram tanto. Depois de horas fazendo escalas em cidades aleatórias, en-fim cheguei em Lisboa. Tinha medo de ser parado na polícia espanhola ou portuguesa por tráfico-de-ansiolíticos: 26 caixas de Sertralina dentro da bagagem, mas não houve qualquer problema. Minhas maiores preocupação foram o atraso em um dos vôos, que quase me fez perder o subsequente (vida-in-escala), e meu companheiro de assento avisando que alguém havia sido estuprado no BBB ("Meu deus, será que a Analice foi estuprada?" & "Meu deus, será que a Analice estuprou alguém?" logo vieram à cabeça). A área de imigração não foi mais do que um carimbo rápido, sem qualquer investigação ou questionário. Segundo o indigente que conheci no aeroporto de Madri, "só dá problema se você tiver cara de índio", e, aparentemente, herdei da democracia racial brasileira um rosto de passe-livre.
Cheguei em casa só para aportar minhas malas, auxiliado pelo Roger, que me alugou o quarto pelo fim de Janeiro. Disso fomos resolver umas pendências e acabei conhecendo um pouco a cidade. Avenidas largas, muitas árvores, um frio parecido com o do interior de Minas. O Bairro Alto, primeiro que visitei, fica n'uma região clássica, que deve ter mantido a arquitetura setecentista do pós-tejemoto (1755). Não tive ainda tempo suficiente de curtir a região, mas já deu pra sentir uma forte atmosfera histórica, como se os prédios segurassem o que o tempo tenta levar. É fantástico. Conheci também uma parte moderna da cidade. Portugal ganhou uma bolada quando entrou na UE e utilizou parte do dinheiro aprimorando o sistema de metrô e outra em embelezamentos. Esse segundo bairro, o Parque das Nações, recebeu grande parte desta verba. Tem o Tejo ao fundo e obras-de-arte pipocando aqui, ali e ali de novo. Uma passarela de caminhada, cercada por árvores, que parece ter a alta burguesia como público maratonista. Os hotéis e os prédios são muito modernos, de uma arquitetura que grita "fomos feitos com o melhor de tudo que há no mundo, obrigado".
Voltamos pra casa. Dormi menos de duas horas e fui acordado pela ligação da Lânia, companheira das ciências sociais, que me chamou pra ir pra casa dela. O Robert também estava lá. Aprontaram-se rápido e fomos ao Bairro Alto, conhecer um bar que chama Quarenta-e-Nove, das amigas do Robert. O lugar é bem legal, não muito grande, mas com uma discoteca ao fundo, um som indie, umas bebidas gostosas e as donas mais interessantes que um bar poderia ter. Não ficamos tanto tempo porque havíamos planejado um samba. Depois de meses de intercâmbio, a Lânia e o Roberto precisavam de um chapéu-panamá e do velho pandeiro brasileiro. Migramos pro Arte e Manhã - Espaço cultural: som ótimo e muita dança-solta. Lá pelo fim da noite, minhas pernas não sabiam se pediam mais ou se entravam em completo colapso. Confesso que nunca foi tão bom ver uma cama. Sambei.